Eu Quero Saber

Eis uma coletânea de textos desconexos e aleatórios, que podem ou não fazer sentido juntos. Histórias – não necessariamente as minhas – que preciso contar para, no fim, saber… Saber o quê? Ainda não descobri!

por André Pacheco

Privação

Publicado em 30/08/11

Privação

Chegou num ponto da vida que não contemplava mais falar por metáforas. Na verdade, não conseguia mais. Seja um verso, uma prosa. As palavras agora soam mais ríspidas, mais desesperadas. Fortes. O respirar, um grito. O grito, uma lamúria. Perdeu as rimas, as métricas, os diálogos, os enredos.

Passou anos tentando entender o que poderia haver de errado, tentando mudar a personalidade, anular sua história. Aceitou seus predicados, orgulhou-se de seus atos. Olhou pelo viés positivo, enxergou de uma forma mais negativa. Foi calmo, esperou chegar, agiu com naturalidade. Mostrou o seu melhor lado, deixou que moldassem o seu pior. Sentou, esperou. Correu, caiu.

Hoje, olhando à noite através da janela, vê uma torre iluminada por várias cores. Escuta os barulhos da cidade que nunca para. Sente o cheiro forte de cigarro impregnado no lençol. As lágrimas descem, contra a sua vontade. De um lado, o crescimento. Do outro, as inquietudes da juventude que começa a desvanecer. Responsabilidades, antes nunca cobradas, aumentam o peso da solidão.

O tempo parece passar cada vez mais rápido. As horas agora são como as suas palavras. Sem verso, apenas tic. Sem prosa, apenas tac. Rápido. Se Deus existe, ele gostaria de perguntar o porquê. Não pede todas as riquezas, não pede o fim das mazelas incuráveis do mundo, não pede nada que exija mudar todo o universo. Apenas pede, caso Ele possa atender a prece, que não lhe seja mais privado o direito de ser amado.

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